Crise econômica diminui movimento na Baixa dos Sapateiros

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Conhecida por ser a mais antiga região de comércio popular da cidade, a Avenida José Joaquim Seabra ? seu nome oficial ? está passando por um dos momentos mais difíceis dos últimos 178 anos

 

Embora revitalizada recentemente, a Baixa dos Sapateiros não superou a crise. A falta de clientes é um dos maiores problemas enfrentados pelo tradicional comércio de rua da capital que tem como principal característica agregar as classes mais baixas, com preços em conta, e uma grande variedade de produtos.

Conhecida por ser a mais antiga região de comércio popular da cidade, a Avenida José Joaquim Seabra – seu nome oficial – está passando por um dos momentos mais difíceis dos últimos 178 anos de atividade. Isso está ocorrendo não só pela crise econômica, mas também por problemas de mobilidade, segurança, e a falta de um marketing social, segundo apontam os lojistas.

Uma breve passagem pelo corredor comercial numa manhã de dia útil permite visualizar várias lojas abertas, e até mesmo a grande circulação de pessoas pelas calçadas observando vitrines, ofertas e produtos em exposição. Contudo, no interior de boa parte desses estabelecimentos, há mais funcionários do que possíveis compradores. A queda no consumo também é evidenciada pela quantidade de imóveis fechados espalhados por toda a região.

A gerente de uma loja voltada para roubas de bebês, Ivonete Mota, relata que o estabelecimento vazio na maior parte do dia é algo que já acontece há pelo menos três meses. “Há três ou quatro anos, nós vendíamos aproximadamente dez peças. Hoje são três”, conta. Segundo ela, uma boa parte de seus clientes tem preferido a Avenida Sete de Setembro para comprar o mesmo tipo de produto.
Em uma situação semelhante se encontra um loja de móveis, gerida por Júlio César Antunes. Trabalhando no local há cerca de três anos, ele explica que, quando chegou, a rentabilidade da loja conseguia chegar aos R$ 200 mil, mas foi caindo gradativamente. “Agora, nossos melhores resultados são quando chegamos aos R$ 80 mil ou, em raras ocasiões, alcançamos os R$ 100 mil.”

Antunes aponta a falta de segurança como um dos fatores que tem afastado os clientes da região central. “A infraestrutura da Baixa dos Sapateiros tem melhorado, nós pudemos ver isso com as reformas, o aspecto da avenida melhorou, mas os problemas de segurança continuam. Poucos são os clientes que se sentem a vontade para parar, olhar o produto, quando ficam sabendo de algum roubo nas proximidades”, criticou.

Em outra loja voltada à moda masculina, a vendedora Sandra Moreno destaca que o ideal para fazer o estabelecimento se manter seria uma média de R$ 1000 de receita por dia – um valor que, em tempos recentes, tem ficado muito difícil se se conquistar. “Nós não podemos abaixar muito mais o preço porque já trabalhamos no limite. E quem vêm a Baixa dos Sapateiros já tem na cabeça, a ideia de que vai achar sempre um produto mais barato”, explica.

Por esta mesma razão, a loja não trabalha com promoções na qual se adquire uma peça de roupa, levando outra de brinde. A maior parte das ações de marketing deste tipo reside nos descontos de percentagens diversas. A loja em que trabalha ficou aproximadamente duas semanas fechada e reabriu com novos donos no início de agosto, e a esperança, segundo Sandra, são o uso de novas ferramentas para alavancar as vendas.

“Eu penso que não adianta culpar a crise, porque a Baixa dos Sapateiros já vem funcionando com dificuldades é bem mais tempo. Acho que é necessário pensar diferente para conquistar o cliente”, avaliou.

Associação de lojistas quer retorno de linhas de ônibus

Situada numa região que dá acesso ao Centro Histórico e aos principais logradouros do centro de Salvador, a avenida possui atualmente um número aproximado de 350 estabelecimentos comerciais em funcionamento. O número é difícil de mensurar, já que, mensalmente, fecham a abrem-se novas lojas na região – algo que não é tão difícil, visto que o aluguel de imóveis na Baixa dos Sapateiros costuma ser bem mais em conta do que outras áreas da cidade.

Ainda assim, a Associação de Lojistas da Baixa dos Sapateiros (Albasa) estima que desde 2015, pelo menos 60 lojas fecharam as portas no corredor comercial. Entre os fatores que influenciaram na queda de consumidores, segundo aponta o presidente da entidade, Rui Barbosa, foi a redução de linhas de ônibus que dão acesso à avenida. A via que já fez parte de 250 itinerários do transporte municipal, agora se contenta com pouco mais de 90.

“Seria interessante realocar, trazer novamente esse público. Eu vejo as pessoas reclamando de que não estão conseguindo chegar na Baixa dos Sapateiros”, destaca Barbosa. A revitalização da região que está sendo executada pelo Governo do Estado é capaz de mudar, mas, segundo avalia o presidente Albasa, é insuficiente, caso outros fatores não sejam trabalhados, a exemplo da segurança.

Dessa forma, o outro problema identificado pelos lojistas reside no marketing social em cima da região, já que a maioria dos comerciantes, por serem microempresários, não podem investir nesse ponto, visto que, por todos esses anos, a Baixa dos Sapateiros se caracterizou por ser uma região de comércio barato, atraindo sempre clientes que querem os produtos mais econômicos. Uma das hipóteses levantadas para essa queda no consumo da JJ Seabra é o crescimento do comércio de bairro e a ascensão das classes mais baixas, que teriam passado a fazer suas compras nos centros comerciais mais sofisticados – como os shoppings centers. No entanto, Rui Barbosa  contesta essa mudança de perfil do consumidor.

O crescimento do comércio nos bairros também é questionado como um fator de afastamento de clientes, devido a grande demanda de pessoas oriundas das regiões mais populosas da cidade (e cujo comércio local é mais pujante).

“Os bairros que mais concentram comércio em sua área são Cajazeiras e Liberdade. Curiosamente, são aqueles que têm a maior presença de público na Baixa dos Sapateiros, Cajazeiras com 12% e Liberdade com 13%. Por que essas pessoas estariam vindo para cá, se há tanta oferta de serviços em seus bairros?”, questiona Elson Pastori, que é vice-presidente da Albasa.Tribuna

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