Recôncavo Reconvexo: Um lugar onde os saberes popular e científico se encontram

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Caetano Bezerra – caetanope@hotmail.com | Kithi – kithi@mzadeventos.net

 

O Recôncavo foi sempre mais um conceito histórico do que uma unidade fisiográfica”

 

Vivemos um tempo de mudanças variadas, uma ebulição visível no mundo inteiro. A tecnologia aproxima os povos e mostra a diversidade de olhares sobre o mesmo espaço cotidiano do viver. A rapidez da informação nos faz iguais e diferentes ao mesmo tempo. Nossas necessidades são as mesmas, mas as formas do fazer diário têm singularidades pertinentes a cada povo e a cada espaço sócio geográfico.

As narrativas individuais ou coletivas se fazem cada vez mais presentes através dos registros audiovisuais, fotográficos e escritos desenhados em blogs, redes sociais e sites. O registro histórico passa a ser espontâneo.

Independente do grau de instrução formal, a necessidade de conhecer o novo, falar e disseminar saberes próprios se faz presente na população. É o mundo global e o mundo local andando juntos. Em meio às transformações políticas, econômicas e técnico-científicas também surge o aumento da demanda para os cursos universitários. Flui da sociedade a necessidade da democratização do conhecimento científico. O projeto de reforma da educação superior se estabelece no Brasil.

Nesta sintonia chega ao Recôncavo Baiano, em 2005, a Universidade. Fruto das politicas públicas de inclusão e reparação social, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) foi a campo antes mesmo de ser instalada. Através de uma pesquisa, ouviu a população para saber quais cursos seriam mais adequados à demanda local. A partir do resultado da pesquisa o plano pedagógico foi elaborado levando em consideração os saberes da comunidade como parte constituinte do processo de produção de conhecimento da universidade.

A história de vida, a memória e a cultura são elementos indissociáveis ao processo de formação, constituindo na prática uma rede de trocas de saberes cujo foco é o desenvolvimento individual dos alunos, dos professores, dos técnicos e das pessoas do entorno, consequentemente dos coletivos e da região. Como fala Naomar de Almeida no livro A Universidade no Século XXI, ” trata-se essencialmente do compromisso com o novo, com aquilo que ainda não se fez, com a experimentação audaciosa de novas formas de pensar e agir”.

Aberta a proposta da universidade nova, a instituição elabora planos e concretiza ações de construção do conhecimento junto com a comunidade do entorno colaborando para o desenvolvimento regional. Uma possibilidade real de estruturar no presente um futuro justo e sustentável. Explorar o espaço sócio-ambiental do Recôncavo Baiano é a tônica da UFRB. O que é que esse lugar tem?

Com uma cultura peculiar e única, a ideia da universidade é conhecer os saberes locais, dividir os saberes científicos e junto com a gente do lugar construir saberes misturados. Uma forma de cooperação mútua, utilizando para isto a adoção de políticas afirmativas e de inclusão social.

A estrutura da universidade é de multicampi, distribuídos em seis municípios: Cruz das Almas (sede), Amargosa, Feira de Santana, Santo Antônio de Jesus, Cachoeira e Santo Amaro. Cada uma das unidades concentra os estudos numa área específica do conhecimento.

Para ser do recôncavo tem que ser de Santo Amaro”

Com esta frase os santo-amarenses encamparam o movimento para ter um campi da UFRB na cidade. Foram às ruas em passeata, estenderam faixas nas janelas, conversaram com quem de direito e poder para resolver, e no ano de 2013, em setembro, mês de Cosme e Damião, o Centro de Cultura, Linguagem e Tecnologias Aplicadas(CECULT) foi implantado.

Como todos os outros campi, já inaugurado desde 2005, os professores e corpo técnico da universidade foram conversar com o povo santo-amarense antes de implantar o Centro. Foram em todos os lugares: na cidade, na roça, na praia, na beira do rio para saber o perfil daquela comunidade. A área cultural se destacou como sendo a referência mais forte. Os cursos de graduação oferecidos contemplam a decisão popular.

O formato de ensino-aprendizagem no Recôncavo representa uma nova forma de atuação universitária, cujo método reside nos estudos interdisciplinares, misturando cultura, tecnologias, linguagens artísticas e economia criativa, a nova ordem mundial. Juntar experiências e saberes é de fato um desafio para todos, tanto para os professores e corpo técnico da instituição, quanto para própria comunidade. Não existem modelos a seguir, como na arte e na cultura, tudo é composição.

Imagine de um lado uma instituição moldada pelo parâmetro da razão e ainda regida pela dura burocracia administrativa e constitutiva de antigos padrões e do outro lado, uma sociedade cuja cultura é regida pela oralidade e espontaneidade. Pensar e realizar o diálogo entre os saberes, tão distintos na sua forma e conteúdo, além de administrar e contornar as mudanças e cortes de investimento governamental para a educação é a tarefa dos iniciantes de uma nova forma de se fazer Universidade.

É o encontro do Recôncavo com o Reconvexo!

Tarefa árdua. Nem sempre compreendida na sua inteireza, mas de fato, uma aprendizagem para todos os participantes do intento, tanto alunos como professores e comunidade. A via de mão dupla para o conhecimento é a tônica da UFRB desde a inauguração. O saber científico vai para as ruas e o saber espontâneo da população entra na instituição, rompendo muros e fronteiras da discriminação.

A política de inclusão e interiorização das universidades federais proporcionou o acesso das pessoas de baixa renda aos cursos de graduação. O resultado para o Recôncavo baiano é o ingresso massivo das classes sociais C, D e E representando 95% do total, o que superou em 26% a região Norte, e em 43% a região nordeste, segundo a pesquisa de Ana Cláudia Atche.

O que é que o recôncavo tem?

No Recôncavo tudo é mistério e clareza. Só quem vive ou viveu nestas terras pode falar com maestria sobre as entranhas que a revelam. É preciso intimidade para enxergar a sua beleza. É preciso calma, tempo e disponibilidade para desvendar o universo de significados da fé, da esperança, da força, da luta, da arte… da cultura existente neste território.

Antes dos portugueses chegarem ao Brasil, às terras do Recôncavo já eram habitadas. Os estudos arqueológicos confirmam a presença humana nesta área há mais de dois mil anos dos dias de agora. Eram marisqueiros e criadores dos Sambaquis, montanhas de restos de moluscos e restos alimentares. Verdadeiras ilhas de ostras. Material utilizado posteriormente para fazer a cal das novas construções que chegavam com os colonizadores, donos dos negros sequestrados da África para a escuridão do trabalho escravo em terras brasileiras.

Franceses e espanhóis já circulavam na Bahia antes mesmo dos portugueses resolverem colonizar de fato o Brasil. Com menos intensidade os ingleses e holandeses também fizeram suas investidas. No século XVI se instala a indústria açucareira na região. A riqueza produzida pelo agronegócio sustentado pelos braços dos índios escravizados seguidos pelos negros traficados da África, outro negócio altamente lucrativo, sustentou os senhores de engenho e suas suntuosas casas grandes da cidade da Bahia. A escolha do açúcar se deu por três motivos básicos: os colonizadores dominavam a técnica de produção, as condições naturais eram favoráveis e o lucro era garantido pela necessidade do mercado externo.

O povo negro, trazido de diversas regiões da África, era misturado quando aqui chegavam. Falando línguas diferentes, cultuando distintas Divindades, convivendo com os índios e tendo a obrigação de tornarem-se católicos, aos poucos, para sobreviverem, foram misturando todos os ingredientes. Nasce o culto a vários orixás em uma mesma casa, o índio imaginário é reverenciado, a língua portuguesa se unifica e o sincretismo com os santos católicos acontece.

Os índios não absorvia o trabalho escravo. Alguns fugiam, outros lutavam e a maioria morria, e com eles a religiosidade e a arte. Nesse ambiente de dominação e exploração, inclusive sexual, a mistura começa a surgir. Os miscigenados não encontravam um clã para seguir. Não tinham uma cultura ancestral fortalecida. Eram rejeitados pelos brancos e rejeitavam índios e negros.

A descontinuidade das culturas é promovida pela igreja. “Se você pega as crianças conforme os missionários faziam criminosamente, e punham juntas crianças de tribos diferentes, que tinham que falar a língua comum que era o português, esses meninos depois não prestam para serem índios, nem prestam para serem negros. Ficam uns marginais” fala Darcy Ribeiro.

O tempo passa. O açúcar vai do apogeu a queda. As batalhas do povo negro pela liberdade se intensificam. Em 13 de maio de 1888 é decretada a Lei que liberta o negro da escravidão oficializada. O tempo passa, as estradas de ferro são construídas, o petróleo é descoberto, o Recôncavo é esquecido enquanto provedor de riquezas e passa a sobreviver da cultura de subsistência.

De forma resumida, é no ambiente de gentes diversas e de lutas intensas pela liberdade e pelo poder que nasce o caráter mestiço e sincrético do povo do Recôncavo. Os Deuses se misturam e dão origem a uma diversidade de cultos e ritos e ao redor destas manifestações a arte se descortina. A materialização do fazer diário, seja para vestir, comer, morar ou orar agrega valores oriundos das mais variadas nações.

A música permeia todas etnias. Evidente nos festejos diários dos índios, descritos pelos autores quinhentistas; nos cantos, instrumentos musicais e danças dos europeus; e na sobrevivência dos negros que utilizavam a música para aparentar estar dançando, quando se treinava as lutas da capoeira e do maculelê, para evocar os Orixás e para tornar os serviços forçados mais leves, afinal, como diz o ditado popular “quem canta os males espanta”.

Um lugar sem fronteiras

Para pertencer ao Recôncavo da Bahia o município deve margear a Bahia de Todos os Santos. Para o geógrafo Milton Santos “o Recôncavo foi sempre mais um conceito histórico do que uma unidade fisiográfica”. Santo Amaro faz parte do Recôncavo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assumpreto/reconcavoereconvexo

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